Contos

Coisas que amamos (mas que fingimos odiar)

Minha amiga comentou comigo (sobre os dois únicos posts até então neste blog): “Liberdade em todas as cenas!“. Parece clichê querer pregar sempre a liberdade de expressão. A liberdade de querer fazer e falar o que quiser. Mas é hipocrisia falar de liberdade sem praticar a liberdade.

Na mesma semana, veio o senhor X, em uma rede social Y, caçar assunto comigo. Elogiou os artistas que escuto, dizendo que havia uma diversidade muito grande. Eu repliquei, dizendo que gosto de tudo; até se estiver tocando um Tonico e Tinoco na radiola, eu to curtindo! O mesmo senhor X falou que achou interessante o fato de eu não fazer média e ser sincera.

É ai que tá. As pessoas são muito de fazer média. Nunca vi ninguém por ai comendo frango assado com as mãos (igual fazemos quando estamos em casa), correr descalço na rua num dia de chuva (que não sejam essas chuvas pesadas de São Paulo, porque o tio Pedro ali em cima tá castigando a gente), comendo chocolate de se lambuzar, puxar alguém pra dançar.

Sujar as mãos de gordura? Nunca! Além de feio e falta de etiqueta, é um atentado à saúde. Pisar no asfalto e ralar os pés? Não existe. Se isso acontecer, não vai aguentar o salto na segunda feira. Chocolate? Pra que? Dá espinha. Dançar com desconhecido, não faz sentido, além de ser uma invasão ao espaço alheio.

Acostumada a estar sempre belas, de salto, a calça justa que mal dá pra respirar. Alface, brócolis e frango no almoço. Maquiagem, rímel, lápis. Faz aqui, vai de lá. SMS, e-mail, rede social. Liga, desliga. Café, chá, suco. Com adoçante, por favor. Barra de cereal, granola, aveia. E água. Água a cada dez minutos. Academia, yoga, pilates. Sorrindo. Sempre sorrindo. E corre daqui. Corre de lá. E encontra o ficante no final do dia (normalmente conhecido da academia), musculoso, roupa de marca. E enche os pais com comida saudável. Compra uma camisa cara pro pai. Uma bolsa de marca pra mãe. E um perfume bacana pra irmã. Adoro essa vida movimentada.

Ou não. Adora mesmo umas havaianas, se largar no sofá com um pote de sorvete (mas nenhuma amiga do trabalho ou da academia pode ficar sabendo, ou ela seria crucificada) e ver um filme mel com açúcar ou uma comédia romântica. E rir e chorar como há tempos não faz (mas ninguém no trabalho pode ficar sabendo que ela chora, ou então, perderia a imponência). Gosta mesmo é de frango com macarrão ou uma bela feijoada no fim de semana, acompanhada da cerveja marota, mesmo sabendo que cerveja dá barriga. Gosta do samba-canção do irmão mais velho, prender o cabelo num coque. Gosta da comida da mãe, da roupa amarrotada do pai. De sujar as mãos com frango, com chocolate, com arroz e feijão. Com carne de churrasco. E a gordura? Deixa pra academia na segunda feira, que ela dá jeito. Gosta do carinha que usa bermuda de moletom, que encontrou na porta do elevador. Com aquele cabelinho jogado pro lado e o rosto queimado de sol. Gosta mesmo é do gordinho simpático, que estacionou o carro do lado ao dela, no estacionamento perto do trabalho, e que faz rir só de dar bom dia (e não o musculoso da academia que só fala de whey protein e 400 abdominais antes de dormir. Vai ver o gordinho é até melhor que o cara da academia. Em todos os sentidos). Gosta de Gaby Amarantos, ouvir forró, disco de vinil. Pão com manteiga. Novela das oito. Prato de florzinha. Xícara da vovó. Tudo que é cafona ela gosta.

Mas gosta pra ela. Na segunda feira, finge odiar.

96964751565

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