Contos

Mais do mesmo. Só que não.

Todos os dias ela precisava de um pouco mais do mesmo. Mas de um jeito diferente.

– Eu faço todos os dias a mesma coisa. Só que não.

Aquela maldita mania do “só que não”. Mas nunca dava pra saber o que isso significava.

– Mais do mesmo, sabe? Mas com variáveis.

Variáveis, integrais, equações. Nunca dava pra entender claramente o que ela dizia. Parecia que fazia questão de ser uma incógnita. Sempre x, y ou z. Às vezes elevada ao quadrado, ao cubo. Só entendia quem a conhecia.

Até que um dia desses, um aventureiro, num desses bares da vida, atreveu-se a questioná-la.

– Com estes óculos e esta sapatilha, me espanta o whisky em suas mãos. – Ele tentou puxar assunto – e sem gelo. Terminou com o namorado, brigou com o chefe ou foi demitida?

Ele era bonitinho. Engraçadinho. Ruivo e com sardas. Camisa xadrez e vans. Era bonitinho. Até supor aquelas coisas todas. Era bonitinho. Até abrir a boca.

– Eu poderia explicar, se você não se achasse tão esperto.

A expressão do carinha era de quem havia acabado de receber um golpe do Anderson Silva, Minotauro ou José Aldo. Ele percebeu a merda que havia dito e passou os três minutos seguintes se desculpando, até convencê-la de que ele deveria ter uma segunda chance para tentar abordá-la novamente. Tentativas em vão. Até que o pobre rapaz se cansou e perguntou, com certa irritabilidade bonitinha:

– O que afinal, te traz aqui?

Ponderou por alguns minutos, até decidir se ele merecia o direito que poucos tinham: a oportunidade de tentar entender a história das variáveis, só que não e as outras coisas.

– Essa história de que mulheres são todas iguais é balela. Respondendo sua pergunta, não namoro porque não quero, adoro meu chefe e acabei de ser promovida. Whisky sem gelo não é exclusividade masculina e beber sozinha é um direito adquirido. Me troco em cinco minutos, não brigo por besteira, maquiagem é algo que faço pouca questão de usar. Me acabo em chocolate, vou pra academia com a mesma frequência que chove no nordeste. Não choro por cara nenhum, bebo cerveja, sustento minha casa e meu carro. Não me prendo a nada nem ninguém. Provavelmente compro tantas roupas quanto você, sou desorganizada. Preciso todos os dias de um bar, de conversas, encontrar minhas amigas, falar de coisas que até Deus duvida e de risadas. E preciso me apaixonar todos os dias. Um pouco de mais do mesmo. Me apaixonar não significa namorar. Preciso da sensação de me sentir livre, de beber sozinha, beber acompanhada por pessoas iguais ou diferentes, me sentir apaixonada por pelo menos cinco minutos. Me apaixonei por você quando te vi entrando no bar – ele olhou espantado (como se já não estivesse espantado o suficiente) – mas já passou. Durou cinco minutos. Como eu disse: nem toda mulher é igual.

Ela abriu a carteira e jogou uma nota de cinquenta reais em cima do balcão.

– Marcos, cobra meu whisky. E deixo pago um pro rapaz aqui. Acho que ele vai precisar de uma dose pra se recuperar.

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8 thoughts on “Mais do mesmo. Só que não.”

  1. HEHEHE pura malandragem nossa, mulher sozinha no bar, ta carente p/ cima dela que ta fácil, e quando tomamos uma invertida dessas geralmente mostramos quanto fdps somos, e a gatinha logo passa a feia maluca!

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