Contos

A (triste) sina de ser (quase sempre) a carrasca da história

A mulher é sempre a carrasca. Ou a vaca, da história, pra ser mais exata. Uma vez eu li um texto da Jana Rosa, que diz “às vezes a vaca é você”, ou algo do tipo.

A mulher é sempre a errada. Do ponto de vista feminino, masculino. No relacionamento, na família… é sempre a errada. Se o seu melhor amigo levou um fora, a menina é uma vaca. Se a garota deu um fora num carinha, a vaca é a garota. Se a filha pede o carro emprestado, não pode, porque o seguro não cobre. Se a mulher fecha alguém no trânsito, a motorista que é burra e comprou a carta. Se a garotinha esqueceu a toalha molhada em cima da cama, é pecado! Nunca vai virar uma mocinha organizada desse jeito. Se queima a comida, não sabe cozinhar e vai ficar pra titia. Se não lava a louça, nunca vai conseguir ter uma casa. E se não souber passar a roupa, piorou! Nem de passadeira vai conseguir trabalhar. Se fala que a vizinha tá gorda, é inveja. Se fala que tá magra, também é inveja. Se é chefe e briga com a subordinada, é inveja, porque a subordinada é isso ou aquilo. E está de perseguição.

 

– Então… como eu vou dizer isso – ela começou a falar para a outra garota, no final da aula de alemão.

– Falando.

– Tem uma pessoa na sala, que é apaixonada por você. Desde o começo do curso. Você deve saber quem é.

– Ah. Sei – ela falou, engasgando.

– Então. Ele tem chance?

– Não. Não sou de me interessar fácil pelas pessoas.

 

Falar não é complicado. Mas ninguém acredita. A galera pensa que a mulher adora dar um fora, só porque quer ficar se achando e aumentar o ego. Acham que a mulher pisa porque gosta. Tem mulher que pisa porque gosta. Mas tem mulher que fica com o coração apertado de falar não. Que fica triste de não conseguir retribuir tal dedicação. Às vezes a vaca que terminou com seu amigo, fez isso porque não achou certo continuar com ele e fazê-lo sofrer. Vendo assim, ela não é tão vaca. Se ela não cuida da casa, é porque se dá melhor trabalhando fora. E não tem nada de errado em não saber passar ou lavar roupa e improvisar um arroz com feijão. Em um mundo tão evoluído, faz pouco sentido a mulher ficar em casa, na poltrona, fazendo cafuné no bebê enquanto espera o marido chegar do trabalho. Falar do corpo da vizinha ou de qualquer outra mulher, nem sempre é inveja, mas uma meta sobre onde quer (ou não quer de jeito nenhum!) chegar. A motorista que fechou o trânsito, pode não ter tido um bom dia, além de trabalhar, tem que cuidar do filho que ralou o joelho na escola, da filha que teve a primeira menstruação, do marido que vive perdendo a hora e do chefe que acha que o dia de trabalho tem 16 horas.

Mas, ainda assim, a vaca sou eu. Só que não (?)

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