Contos

Sophia I

Cadê você que eu não vejo? – me perguntei, olhando para a platéia daquela noite. Ele sempre estava lá: na segunda cadeira, da esquerda para a direita, na segunda fileira. Isso quando o local tinha cadeiras. No lugar que ele costumava estar, haviam duas crianças. Lindas. Meus olhos brilharam ao vê-las. Mas a felicidade de ver crianças não substituía a alegria de vê-lo. Eu era mesmo muito infantil de acreditar que algum dia aconteceria alguma coisa. E lá pelo meio, ele apareceu. Na última cadeira, da última fileira. “Cadê você que não me vê?”. Suspirei aliviada. E fiz toda a apresentação pra ele. Só pra ele.

Mas ele não me deixava entrar. Não me deixava ver o que havia por trás daqueles olhos castanho amendoados. Por trás daquelas tatuagens. Não deixava. Não conseguia, por mais que eu tentasse ou quisesse ou fizesse de tudo para perder meu medo.

Entretanto… entretanto, aquela noite foi diferente. Talvez não por vontade própria, ele foi arrastado, junto com a multidão, para onde eu estava. E entre tantos, consegui vê-lo. Abracei à todos, recebi todos os elogios com alegria. Ele parecia encabulado ao chegar até mim, mas naquela noite, quem recebeu o maior presente fui eu. O abraço singular e o perfume ainda estão em mim.

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