Contos

O avesso do avesso do avesso

Era assim como Sampa: o avesso do avesso. Enquanto alguns queriam a noite, ela era do dia. E quando optavam pelo dia, ela decidia pela noite. Quando era bar, ela queria cinema. Quando cinema, preferia o museu. E quando museu, ela optava por andar de caiaque.

Nunca gostou de rodeios. De flores. Ou de meias palavras. Era melhor o preto no branco. Já que não sabia ler entrelinhas, era melhor que não existissem. Aliás, quem inventou esse papo de entrelinhas? A única utilidade que já viu pra elas foi no pré, quando a professora mandou um bilhete gigante para os pais, falando que ela precisava treinar caligrafia.

O avesso do avesso. Suas amigas queriam ir pra Londres. Ela queria conhecer Bali. Enquanto a colega do trabalho que iria casar contava os dias para passar a lua de mel em Paris, ela planejava passar a sua (isso quando arrumasse um maluco) na Tailândia. Dispensava um “sex on the beach” ou uma “piña colada” por um baita copo de cerveja e uma bela porção de batata frita.

Em um ambiente preto-no-branco-e-cinza do escritório, sua mesa era a mais colorida. Com folhagens, quadros e desenhos. As pessoas olhavam torto, mas achavam engraçado. Uma peça diferente. Maluca. Fora dos padrões.

Do avesso.

Contos

Eu acredito em seis coisas impossíveis antes do café da manhã.

Ainda não consegui entender, em toda a sua amplitude, se a vida é um jogo de sorte ou azar. Se ela funciona no ganha-ganha. Se acontece na base da troca. Se é sincronicidade ou pura coincidência.

Não consigo me decidir se são seis graus de separação, efeito borboleta, teoria do caos. Se existe uma matemática ou se é pura física quântica: valores parcialmente conhecidos e resultados incertos.

Me parece mais plausível acreditar no País das Maravilhas, no Asteróide B 612, na Terra do Nunca, na Luz Verde. No navio Pérola Negra. Nas vantagens de ser invisível.

Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era, mas acho que já mudei muitas vezes desde então. Não é que eu goste de complicar as coisas, elas é que gostam de ser complicadas comigo.

Sorriu compreensivamente – ou muito mais do que isso. Era um desses raros sorrisos que têm em si algo de segurança eterna,um desses sorrisos com que a nós talvez nos deparemos quatro ou cinco vezes na vida. Um sorriso que, por um momento, encarava – ou parecia encarar – todo o mundo infindável, e que depois se concentrava em nós com um preconceito irresistível a nosso favor. Um sorriso que nos compreendia só até o ponto em que nós queríamos ser compreendidos, que acreditava em nós como nós gostaríamos de acreditar, assegurando-nos que tinha de nós exatamente a impressão que, na melhor das hipóteses, esperávamos causar.

Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos.
Amar não é olhar um para o outro, é olhar juntos na mesma direção.

Ela lhe contou histórias, ele a ensinou a voar… Amavam-se, mas ele não queria crescer…

Acreditava na luz verde, no futuro orgástico que, ano após ano, recua diante dos nossos olhos. Nessa altura iludiu-nos, mas não importa – amanhã correremos mais depressa, esticaremos mais os braços… E uma bela manhã…Assim vamos persistindo, como barcos contra a corrente, incessantemente levados de volta ao passado.

Para que seja possível planejar um novo futuro.

Contos

O amor não ensinou a nadar

Eu tentei. Uma. Duas. Três vezes. Tentei viver sem planos, sem promessas. Mas de novo, um oceano nos separa. Só que dessa vez não é somente oceano literal. É um oceano de coisas, de vidas, de pessoas, de histórias. De variações de humor, de sentimentos conhecidos que fingimos desconhecer. Um oceano de sentimentos que temos e que fingimos não ter.

E não tem outra forma de atravessar um oceano que não seja de avião. Ou de navio. Mas eu sempre tive medo de avião. E se o avião cair? E se o barco afundar? O amor não vai impedir de afogar. O amor não ensinou a nadar. A gente aprende a nadar na escola. Ou por conta.

O problema da paixão é que ela envolve outra pessoa. E a outra pessoa está do outro lado do oceano. Ninguém constrói uma ponte para atravessar um oceano. Ficar na margem é mais seguro.

Os planos se foram com o avião. As promessas afundaram com o navio. E a paixão ficou pra uma terceira pessoa, do outro lado da margem.

Contos

Das poesias…

sobre cor, sobre sabor
sabor de verão, cor de palavras
sobre dança, sobre dor
a dança da ausência, a dor da alegria

acerto, desmazelo, flor no cabelo.
Saia rodada, na dança, na presença, na ausência
Samba na dor, na alegria, no choro, no riso
Na métrica, no salão, no desespero

nem tudo sempre claro, me amarro
nem tudo faz sentido, e nem sempre perdido
se eu páro, me perco. De mim, de ti, de nós
Se continuo, me encontro: antes, depois e após

Contos

100 motivos… ou alguns tantos que valem por cem.

Já haviam se passado duas semanas. Talvez mais. Talvez menos. Talvez tristeza não era a melhor palavra que definisse. Provavelmente, raiva e decepção também não. Se houvesse algo que pudesse nomear os três sentimentos em um só, seria esse o nome.

 

E teve um estalo. Uma lista. Adorava listas. Listas de lugares pra viajar. Músicas para ouvir. Comidas a se provar. Caras pra beijar. Livros para ler.

 

100 motivos pra te odiar em vinte dias

Contos

Sophia I

Cadê você que eu não vejo? – me perguntei, olhando para a platéia daquela noite. Ele sempre estava lá: na segunda cadeira, da esquerda para a direita, na segunda fileira. Isso quando o local tinha cadeiras. No lugar que ele costumava estar, haviam duas crianças. Lindas. Meus olhos brilharam ao vê-las. Mas a felicidade de ver crianças não substituía a alegria de vê-lo. Eu era mesmo muito infantil de acreditar que algum dia aconteceria alguma coisa. E lá pelo meio, ele apareceu. Na última cadeira, da última fileira. “Cadê você que não me vê?”. Suspirei aliviada. E fiz toda a apresentação pra ele. Só pra ele.

Mas ele não me deixava entrar. Não me deixava ver o que havia por trás daqueles olhos castanho amendoados. Por trás daquelas tatuagens. Não deixava. Não conseguia, por mais que eu tentasse ou quisesse ou fizesse de tudo para perder meu medo.

Entretanto… entretanto, aquela noite foi diferente. Talvez não por vontade própria, ele foi arrastado, junto com a multidão, para onde eu estava. E entre tantos, consegui vê-lo. Abracei à todos, recebi todos os elogios com alegria. Ele parecia encabulado ao chegar até mim, mas naquela noite, quem recebeu o maior presente fui eu. O abraço singular e o perfume ainda estão em mim.

Contos

Ela sabia que, por menos que quisesse, seus olhos brilhavam quando falava dele. Sabia que o coração batia acelerado quando encontrava alguém com a cara dele no metrô, mesmo sabendo que ele estava a 727km. E quando ouvia a música favorita. E quando sentia o perfume, o cheiro de praia. Os cabelos loiros, os olhos verdes. A pele bronzeada. Sabia que nunca ia encontrar alguém assim. Por mais que quisesse ou procurasse. Sabia que a voz tremia nas raras vezes que ligava pra ele, pra contar da vida, perguntar da vida, saber quando ele voltava (mesmo sabendo que a resposta seria “daqui uns meses eu estou por ai” e essa volta provavelmente seria adiada). Sabia que, de alguma forma estranha, ele gostava dela. Mas não essa coisa de namoro, de rolo, de caso. Gostava porque era uma pessoa boa.

Ela só não conseguia saber se era assim que ela gostava dele.

Contos

Dizem que tudo que é proibido é mais gostoso. Pode até ser. A curto prazo. Ou em doses homeopáticas (quando o proibido acontece às vezes).

– Eu não sei o que aconteceu, mas você me cativou.
– Você mal me conhece.
– Por isso que eu disse que não sei o que aconteceu. Você me atrai de um jeito maluco. Tenho chance?
– Claro… que não. Caso você não se lembre, você carrega uma aliança na mão esquerda.

Ficar com um cara comprometido não é proibido. Mas é errado. Mas é errado? Às vezes o certo e o errado depende do julgamento de cada um. É tipo aquele ditado “quem ama o feio, bonito lhe parece”.

É fato que não podemos julgar nem ter pré-conceitos em relação à nada nem ninguém.

O que é certo pra mim, pode ser errado pra você, fulano ou beltrano. Mas por que raios o errado sempre atrai a gente? O ser humano é atraído por aquela sensação de aventura, de correr riscos e achar que nunca vai se dar mal. De fazer o errado e se achar o malandro, o espertão. Aquela atração fatal por quebrar regras. Ultrapassar os próprios limites. E vale à pena. E vale à pena?

Depende do risco. E do que se ganha com ele.

– Ele tem aqueles olhos hipnotizantes – falou pra amiga, no final do expediente.
– E é casado, como você mesma disse.
– E é casado. Deixa pra lá. Passo essa história – finalizou, subindo no ônibus.

Mentira. Fingimos que deixamos o proibido pra lá. Às vezes até deixamos, mas algo, bem lá no fundo, insiste em nos perguntar: e se tivesse quebrado a regra? Podia ter dado errado, mas não ficou na vontade.

Beijar um cara casado é errado. Pra ele, que é casado. Se a menina for solteira…

Pisar em cima das pessoas pra ser promovido na empresa não é proibido. Mas é errado. E por que tanta gente faz?

É aquela coisa da ambição. De parecer ser o melhor, o espertão. De novo a esperteza. A sensação de que nunca vai dar errado (mesmo fazendo tudo de mais errad0).

Ultrapassar o limite de velocidade é proibido. Mas é gostoso. O ponteiro tremendo no painel, o vento nos cabelos, o som alto. A sensação de liberdade. E a multa? Passa pra carteira da mãe, que não dirige há anos. É errado. Mas não é proibido.

O que é errado, pode não ser proibido. E ser proibido não quer dizer muita coisa. A gente sempre escapa. Sempre dá uma fugidinha. Sempre consegue o que quer. A vontade pode ser sem pé nem cabeça, como essa crônica. E a sensação de euforia, cedo ou tarde, ela chega.

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E pro desamor… (2)

Ela amava. Loucamente. Ah, como amava. Amava tanto que chegava a doer. Doíam todos os membros. Se contorciam e choravam, de tanto amor. Mãos e braços. Pés e pernas. Barriga e pescoço. Fígado e estômago. Baço e coração.

Sim, meu amor. Te amo com todo meu ser – ela dizia.
Com todo seu ser? – Ele retrucava.
Sim. Com todo meu ser. Mãos e braços, pés, pernas, baço, fígado e coração. Com todo meu ser. – Ela respondia, envolvendo-o com seus braços, num abraço inescapável.

Ele… bem. Deixa pra lá.

Eu te amo, com todo meu ser. – Ela disse, aparecendo de surpresa, na porta do prédio.
Eu te amo, com braços e coração. – Disse, encontrando-o na porta do elevador, do predio que ele trabalhava.
Te amo, com pernas e estômago – disse, invadindo a sala de reuniões.
Te amo. Com todo meu ser – dizia, enquanto puxava os cabelos da mera colega de trabalho dele, por achar que eles estavam tendo um caso.

E repetia. As cenas. Os discursos. Arranhando os amigos dele, pois eles estavam roubando o amor da vida dela.

Ah, como a vida era injusta! Por que colocar tanta gente entre eles? A ela, bastava o apartamento, o carro e ele. E pra ele, também deveria bastar. Pra que tanta gente?

E ele? Um dia… cansou de tanto amor.

Eu te amo, com mãos, pernas..
E braços e bla bla bla. E com o cérebro? Também me ama com o cérebro? – ele perguntou, cansado. Afinal, era irracional o que ela fazia ou pensava.

Ela emudeceu. Ele pegou sua mala.

Eu imaginei. A gente se vê por ai. Ou não. Boa sorte com seu amor sem cérebro. – ele disse, entrando no elevador.

Contos

Mesmo clichê.

É clichê. Mas quem não gosta de um clichê? A vida imita o vídeo. Algumas pessoas vivem num clichê infinito. O velho texto clichê do “seu amor pode estar do seu lado”.

Ela sempre reclamava de nunca achar ninguém que combinasse plenamente com ela. Os amigos diziam que quando ela parasse de escolher tanto, a tal pessoa apareceria.

O problema é que as pessoas nunca param de procurar. Mesmo de forma inconsciente. Mas procuram mal procurado. Ou do jeito errado. Nando Reis disse bem: seu amor pode estar do seu lado. Claro que não é uma regra. Mas acontece.

O que não dá pra entender é, num mundo onde as pessoas dizem tanto que estão cheias de amor pra dar, alguns estão tão carentes desse tal do amor.

Mesa de bar, fila de supermercado, livraria… sempre procurando alguém que era sua cara. Um dia desistiu e desligou do mundo. Compenetrou-se nos livros que lia durante a viagem no metrô e parou de olhar para os lados enquanto fazia compras ou andava pelas ruas. “I’m not made for love”, dizia a música.

– Seu problema é que quando o cara é legal e tá te dando mole, você não bota fé e vira brother dele. Como vai achar alguém? – ela havia cansado de ouvir essa frase, dita por uma, duas, três… todas as amigas.

Se o cara é legal, ÓBVIO que a gente fica amiga. O problema é que quando passa da amizade, a gente deixa pra lá. Gosta do clichê, mas acha bobagem a música do Ruivão. Gosta do clichê quando a amiga conta, radiante, que conheceu um carinha no ônibus. Acha o máximo e dá risada quando a melhor amiga disse que tá namorando o pentelho que conheceu na primeira série. Gosta do clichê quando é com o outro.

As pessoas reclamam da falta de amor, dizem que tem amor pra dar, mas não sabem fazer da forma certa. Amor não é só mimimi pra cá, demonstrar ciúme doentio pra cá. Às vezes é mais simples do que se imagina. Acho que a gente não faz direito. Não sabe olhar. Vai ver o melhor amigo da amiga, que te conheceu no teu pior dia, tá dando o maior mole, e a bonita nem aí pra hora do Brasil. O cara no ônibus só se ofereceu pra segurar a bolsa porque esperou por dias, o ônibus estar lotado o suficiente só pra menina parar do lado dele e puxar papo. A menina resolveu bancar a cavalheira e segurar a porta do elevador, só porque ele tava vindo e ai finalmente poderiam trocar uma ideia.

Mas… balela! A gente anda tão ocupado em atualizar o status no Facebook, fazer check in no Foursquare, trabalhar até tarde e pular o Happy Hour, dormir no metrô, jogar qualquer coisa no PSP, fingir que não dá bola pra ninguém, preocupar-se com nós mesmos, ficar querendo de volta a menina que deu um pé na bunda, gastando a vida com relacionamentos onde o amor ficou jogado lá no meio das roupas que vão pra doação na campanha do agasalho, que esquecemos das coisas mais simples da vida.

É tipo frase de compartilhamentos infinitos nas redes sociais: Quem arranca um sorriso, pode arrancar um coração.

Eu quero ver arrancar um sorriso onde as pessoas só guardam a felicidade pra elas mesmas.