Cotidiano

Eu não preciso do 08 de março

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Não. Não preciso de feminismo. Não preciso saber que existe “coisa de menina” e “coisa de menino”. Não preciso reclamar que mulheres ganham menos que homem. Muito menos saber que tem gente que ainda se surpreende quando vê uma mulher dirigindo um ônibus ou um caminhão. Não preciso do patriarcado. Não preciso ser lembrada que mulheres eram proibidas de ir à escola, estudar matemática, envolver-se com ciências exatas. Não preciso retrucar, sem titubear, quando ouço que lugar de mulher é na cozinha, no tanque, cuidando de filho e varrendo a casa.

Não preciso que me informem de pesquisas que dizem que:
13,5 milhões de mulheres já sofreram algum tipo de violência.
11 estupros por hora.
1 espancamento a cada 24 segundos.
Apenas 35% das violações notificadas.
1 milhão de abortos clandestinos por ano.
Só 10% de mulheres no Congresso.
Mulheres recebem apenas 2/3 dos salários recebidos por homens.
Quase 60% das mulheres vivenciando assédios no ambiente laboral.

Nem que me lembrem da maternidade compulsória, violência obstétrica, objetificação do corpo, silenciamento e invisibildade de denúncias, repressão e julgamento moral e sexual, rituais perversos de feminilidade e transtornos alimentares, baixa auto-estima, ansiedade e insegurança.

Devo ignorar a preocupação de pais, mães, amigos e familiares de mulheres que saem sozinhas à noite, que pegam ônibus e táxi sem companhia; mulheres que viajam sozinha ou fazem qualquer outra coisa, quando bem quer e entendem. Também devo ignorar quando as manas sofrem repressão por manifestar sua opinião. A sororidade é desnecessária. Devo usar roupas comportadas, esquecer o batom vermelho, afinal, assim é que uma mulher direita se veste. Não preciso combater os padrões de beleza criados pela indústria (da mídia. Da moda. Da sociedade). Não preciso me preocupar com estupro ou assalto, só porque nasci mulher. Não preciso ter controle sobre o meu próprio corpo ou fazer minhas próprias escolhas.Não quero que me lembrem toda hora que mulher é só quem tem vagina e nasceu branca, na classe média. As outras são só… ah, o que são.

Vítimas de machismo não existe. Nunca existiram. Não preciso de independência financeira. É uma chatice essa repetição sobre conquistas das mulheres. Não é nada demais. É absolutamente normal levar um tiro na cabeça quando se luta por educação. É normal ser taxada de louca quando se denuncia o assédio. É normal trabalhar fora, cuidar de filhos e da casa e ouvir que não faz nada. É normal sofrer violência por ser mulher. É normal não precisar lutar. É normal ser educada assim: “Se comporte. Feche as pernas. Use saia. Use salto. Use batom. Tenha namorado. Tenha marido. Tenha filhos. Arrume o cabelo. Seja dona de casa. Não ande soznha. Aprenda a cozinhar.”

Não preciso da luta diária pra derrubar barreiras. Nem das tantas outras coisas que acontecem todos os dias e que são muitas para enumerar.

Não preciso disso. Não preciso dar seguimento à luta que começou num dia como hoje, 08 de março. É tudo história. Contos que nos contam. Mentira. Exagero. Conversa. Balela.

 

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Contos

Pela igualdade no direito da pegação

O cara era bonito. E bacana. Inteligente. Papo bom. Divertido, tinha carro, bom gosto musical, frequentava lugares diferentes. Papo vai, papo vem, rolou um beijo. E a mão aqui. E a mão ali. E ponto. E num outro dia, uma mão aqui, outra ali, outra aqui de novo. E ponto. E depois, pela menina supostamente não fazer parte do mesmo universo desregrado dele, fim.

“Ah, porque você é pra namorar e eu não quero nada sério”.

Certo. Por que todo homem acha que a mulher não pode simplesmente ficar por ficar? Até cheguei a fazer uma pesquisa se os homens acham absurdo o fato da mulher querer sair pra curtir, pra pegação e bla bla bla (mentira, perguntei pra um cara só). A resposta que eu tive foi que o cara sempre sai de casa já na segunda intenção. E pra mulher, a segunda intenção é consequência, que primeiro rola um sentimento.

Certo. O fato da mulher ser emotiva não a impede de querer sair na noite pra beijar várias bocas ou dormir com o bonitinho que ela achou na balada indie da Augusta.

Ser de família, ter religião, honrar com compromissos, respeitar os pais, ajudar as pessoas, estudar, ficar em casa num sábado à noite, ir à missa no domingo de manhã, dormir cedo, acordar cedo, fazer supermercado, cuidar de criança, ir ao shopping, não a faz santa. E muito menos tira o direito dela querer as coisas no parágrafo supracitado.

“Em momento algum eu falei de namoro” – ela disse.

“Mas você é muito bacana e eu não quero te chatear” – respondeu.

Okay. Azar o dele. Perdeu uma peguete bacana e uma transa casual. Afinal, para os homens, a mulher não tem tanto direito de sair pra pegação. Não como eles.