Cotidiano

O que eu aprendi com o processo de impeachment

Ontem, o Brasil parou para assistir à etapa de votações para dar prosseguimento ao processo de Impeachment da presidente Dilma. O Impeachment não é algo inédito no Brasil. Já aconteceu lá atrás, com o então presidente Collor. Naquela situação, era um país todo contra ele. Hoje, temos os dois lados da moeda. E aqui está o que eu aprendi com o ocorrido.

    • Brasileiro é inteiramente passional: futebol, religião e política. Cada voto de sim e não foi comemorado como um gol em época de Copa do Mundo. Coloca Deus em todos os lugares, como se Ele fosse resolver alguma coisa.
    • As minorias, começando a ser representadas a passos ABSURDAMENTE lentos, estão cada vez menos sendo respeitadas. Não vi todos os votos. Mas, dos que vi, contei UM deputado negro, UM homossexual e pouquíssimas mulheres. E quando foi dado o direito de fala a estas mulheres, suas vozes foram abafadas pelos homens que ali estavam. Apesar de muitos dizerem que são contra os deputados que ali estavam, que é um lugar cheio de corruptos, a realidade ali transmitida, é a realidade do dia a dia de muitas mulheres.
    • A coletividade, solidariedade, companheirismo está cada vez menos existente nesta sociedade. O individualismo impera. Muitos dos argumentos que eu vi defendiam interesses pessoais: contra programas de estudos porque se formou com o tal dinheiro suado, não precisou de dinheiro do governo pra isso, por exemplo.
    • O valor das eleições diretas caíram por terra. De que adianta o povo eleger alguém se, quando este alguém desagrada os manda-chuvas do governo, existe uma corrida contra o tempo para tirar este alguém de lá? E as pessoas que votam, não representam o interesse do povo, somente os interesses pessoais (“pela minha filha, pelo meu neto, pela minha esposa, pelos corretores imobiliários, voto sim!”). Insatisfações com o governo todo mundo tem. Então está na hora de pensar direitinho, analisar os candidatos, fazer a lição de casa, pra poder tirar nota dez na prova, daqui dois anos.
    • A gente realmente se engana com as pessoas. Seja por posicionamento político, seja por personalidade (insira aqui aquelx amiguinhx que fica distribuindo discursos de ódio pelo Facebook, mesa de bar, porta de igreja, reuniões sociais).
    • Exaltação à ditadura agora é argumento pra tudo. (Vou lembrar disso na hora de fazer minhas redações, entrevistas, posts aqui, fotos no instagram e aí por diante).

Essa é minha primeira parte da lista. Há várias outras coisas que eu aprendi e ainda estou listando. Independente do posicionamento político, sempre vale observar o que nos é exposto e absorver somente aquilo que nos interessa. Se nada é interessante, pelo menos os diferentes pontos de vista foram exposto e, espero que, respeitados.

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Cotidiano

Uma imagem fala mais que mil palavras

O problema são as palavras que são ditas. E como são ditas. E sob qual perspectiva a imagem é vista.

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Ontem o país foi às ruas pedir por Impeachment, fim da corrupção, intervenção militar etc. Eu fiquei em casa vendo The Voice Kids. E foi lindo. Enquanto rolavam os protestos, acompanhei algumas coisas pelo Facebook e me deparei com esta imagem:

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E sobre ela, ontem e hoje, um milhão de palavras. Entre elas:

  • Ela está fazendo somente o trabalho dela (informação inclusive usada como defesa do casal);
  • A mulher negra continua sendo explorada e escravizada pelos brancos.
  • A empregada está trabalhando e indo a uma manifestação de direita, algo que pode ser contra a ideologia dela
  • Rei do Mate no Rio de Janeiro. Daqui a pouco vão criar Rei do Churrasco na Bahia (referência a duas coisas típicas do Rio Grande do Sul. O melhor comentário na minha opinião).

O caso é que é uma foto, tirada em uma manifestação majoritariamente de direita, com um casal branco, empregando uma mulher negra, trabalhando de final de semana. Mas a internet não perdoa. Discursos são feitos a todo momento para defender, ora a babá, ora o casal.

Quem pode dizer se está descontente ou não de estar ali, é a babá. Quem pode dizer se ela foi contra a ideologia dela, ao ir ao protesto acompanhando os patrões, é a babá. Se a pessoa é contra o tabagismo mas trabalhar em uma empresa que produz cigarros pois este foi o emprego que ela encontrou no momento, os patrões dela merecem ser crucificados?

Sei que este exemplo não segue o mesmo nível de “motivações” que desencadearam as críticas; a mulher já é subvalorizada no mercado de trabalho. E sendo negra, a situação complica ainda mais. Sei muito bem disso. Entretanto, semana passada eu vi um vídeo que dizia algo como “se você está numa roda de conversa, e nesta roda tem uma pessoa da minoria x e rola uma piada/comentário sobre esta minoria x, esta pessoa tem que dizer se ficou ofendida ou não.” Mas isso não é impedimento para que sejamos solidários com a dor do outro, na ausência deste.

Não sabemos se a babá ficou ofendida. Talvez sim. Talvez não. Até o momento não houve manifestação da parte dela. E provavelmente nem terá. Por isso, há tanta gente praticando a solidariedade mencionada acima. Infelizmente, nossa sociedade é racista e misógina. E pra ajudar, estamos passando por uma crise sem tamanho. E, com grande pesar, temos que aceitar o tal “é o que tem pra hoje, porque amanhã eu não sei se vai ter”.

Acho justo defender as causas pessoais. A discussão é sadia e o aprendizado é livre, quando se mantém cabeça e coração abertos, para aceitar qualquer coisa. A foto, deveria dar abertura para discussões sobre como melhorar a colocação da mulher no mercado de trabalho, como mudar o país, como viver bem em sociedade, como cuidar de crianças e cachorros (manifestações barulhentas não são um bom lugar para crianças e muito menos para cães, pois possuem ouvidos altamente sensíveis). Discussões sobre como formar uma sociedade mais igualitária, com oportunidades iguais para todos. Mas, conversas sadias estão cada vez mais escassas e os discursos de ódio e o linchamento virtual, cada vez mais frequentes.

A internet se tornou um imenso palanque de comícios. Juízes e juízas de redes sociais. Uma gigante mesa redonda de ataques e defesas, onde slides são exibidos, um após o outro, para que seus participantes manifestem suas opiniões. Mas só por dois dias. Amanhã, o slide será outro. E ninguém mais vai lembrar do slide do Carnaval.

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