Cotidiano

Uma imagem fala mais que mil palavras

O problema são as palavras que são ditas. E como são ditas. E sob qual perspectiva a imagem é vista.

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Ontem o país foi às ruas pedir por Impeachment, fim da corrupção, intervenção militar etc. Eu fiquei em casa vendo The Voice Kids. E foi lindo. Enquanto rolavam os protestos, acompanhei algumas coisas pelo Facebook e me deparei com esta imagem:

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E sobre ela, ontem e hoje, um milhão de palavras. Entre elas:

  • Ela está fazendo somente o trabalho dela (informação inclusive usada como defesa do casal);
  • A mulher negra continua sendo explorada e escravizada pelos brancos.
  • A empregada está trabalhando e indo a uma manifestação de direita, algo que pode ser contra a ideologia dela
  • Rei do Mate no Rio de Janeiro. Daqui a pouco vão criar Rei do Churrasco na Bahia (referência a duas coisas típicas do Rio Grande do Sul. O melhor comentário na minha opinião).

O caso é que é uma foto, tirada em uma manifestação majoritariamente de direita, com um casal branco, empregando uma mulher negra, trabalhando de final de semana. Mas a internet não perdoa. Discursos são feitos a todo momento para defender, ora a babá, ora o casal.

Quem pode dizer se está descontente ou não de estar ali, é a babá. Quem pode dizer se ela foi contra a ideologia dela, ao ir ao protesto acompanhando os patrões, é a babá. Se a pessoa é contra o tabagismo mas trabalhar em uma empresa que produz cigarros pois este foi o emprego que ela encontrou no momento, os patrões dela merecem ser crucificados?

Sei que este exemplo não segue o mesmo nível de “motivações” que desencadearam as críticas; a mulher já é subvalorizada no mercado de trabalho. E sendo negra, a situação complica ainda mais. Sei muito bem disso. Entretanto, semana passada eu vi um vídeo que dizia algo como “se você está numa roda de conversa, e nesta roda tem uma pessoa da minoria x e rola uma piada/comentário sobre esta minoria x, esta pessoa tem que dizer se ficou ofendida ou não.” Mas isso não é impedimento para que sejamos solidários com a dor do outro, na ausência deste.

Não sabemos se a babá ficou ofendida. Talvez sim. Talvez não. Até o momento não houve manifestação da parte dela. E provavelmente nem terá. Por isso, há tanta gente praticando a solidariedade mencionada acima. Infelizmente, nossa sociedade é racista e misógina. E pra ajudar, estamos passando por uma crise sem tamanho. E, com grande pesar, temos que aceitar o tal “é o que tem pra hoje, porque amanhã eu não sei se vai ter”.

Acho justo defender as causas pessoais. A discussão é sadia e o aprendizado é livre, quando se mantém cabeça e coração abertos, para aceitar qualquer coisa. A foto, deveria dar abertura para discussões sobre como melhorar a colocação da mulher no mercado de trabalho, como mudar o país, como viver bem em sociedade, como cuidar de crianças e cachorros (manifestações barulhentas não são um bom lugar para crianças e muito menos para cães, pois possuem ouvidos altamente sensíveis). Discussões sobre como formar uma sociedade mais igualitária, com oportunidades iguais para todos. Mas, conversas sadias estão cada vez mais escassas e os discursos de ódio e o linchamento virtual, cada vez mais frequentes.

A internet se tornou um imenso palanque de comícios. Juízes e juízas de redes sociais. Uma gigante mesa redonda de ataques e defesas, onde slides são exibidos, um após o outro, para que seus participantes manifestem suas opiniões. Mas só por dois dias. Amanhã, o slide será outro. E ninguém mais vai lembrar do slide do Carnaval.

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